Marco 2008
volume 22
numero 159

 

Titulo matéria de capa:

 

CAFÉ: RUMO À MAIORIDADE NA QUALIDADE.

CAFÉ: RUMO À MAIORIDADE NA QUALIDADE.(Editorial parcial) Getúlio Vargas certa vez disse que "o ideal é a alma de todas as realizações". Este mesmo Getúlio que incluiu o Brasil no mapa da responsabilidade social,com a criação da Consolidação das Leis Trabalhistas e que autorizou a queima de café, para auxiliar na regulação do mercado brasileiro,pós crise econômica de 1929, numa época em que o finado Sr. Ernesto Illy ainda era pequenininho e o negócio do café expresso, uma idealização da família dele, restrita ao território italiano. A queima do café deveria ter ensinado a cafeicultura brasileira, já na década de 1930 e 1940 a buscar prospectar o mercado internacional da mesma forma que os colombianos. Enquanto no Brasil surgia o epartamento Nacional do Café, que mais tarde deu origem ao extinto Instituto Brasileiro do Café, a Colômbia criava a lenda "Juan Valdez". Ambos projetos, diga-se de passagem, são contemporâneos. Enquanto crescíamos em quantidade, eles cresciam em qualidade e viraram grife reconhecida, inclusive como origem no contrato da antiga CSCE (Coffee, Sugar and Cocoa Exchange),atual ICE (Intercontinental Exchange). Surge o papel da personagem emblemática encantadora, que conduz o consumidor pela mão à luta imaginária contra as Farcs e os narcotraficantes para salvar vidas de inocentes. O poder de Juan Valdez... Mais do que uma bebida exótica, o café, nesse caso é uma bebida com fortíssimo apelo social. O mesmo equivale para os cafés cultivados na América Central,em vários países dos continentes africano e asiático. Cafés sociais,exóticos, geram comoção e por conseguinte,mercados consumidores cativos, cônscios de que o seu prazer salva vidas anônimas, distantes do seu mundo situado normalmente em países desenvolvidos. A sintonia fina do Brasil com essa demanda mundial começa a ganhar impulso há cerca de 17 anos atrás, quando a extinção do Instituto Brasileiro do Café (IBC) expôs as fragilidades do setor ao mundo, pela perda da paternidade,obrigando-o a optar pela qualidade. Os saltos registrados ao longo de todo esse tempo, conduziram o país a um patamar impressionante de recuperação, especialmente do seu índice de consumo interno, tornando-o um ativo difusor da causa da qualidade no mundo. Um reflexo dessa recente história deu-se pela chancela da Organização Internacional do Café ao Programa Café e Saúde e mais recentemente pela ativa participação do país como ator na implantação Código Comum para a Comunidade Cafeeira, também conhecido como 4C's, a partir do ano passado, demostrando um compromisso nacional com a qualidade. Há muitas vertentes a serem discutidas quanto às modificações registradas nos últimos anos, mas o 4C é um marco significativo no design do novo mercado cafeeiro global que se desenha. Embora seja um padrão internacional bastante criticado, a idéia da planificação da qualidade é atrativa, já que no médio prazo, aquilo que conhecemos como qualidade técnica da bebida hoje (cafés livres de grãos pretos, verdes e ardidos, tipo 6 para melhor (86 defeitos, padrão BMF), bebida dura e ou superior),deixará de ser um diferencial, para se tornar uma obrigação. O mercado caminha para essa realidade, à medida que a grande indústria de café internacional tornou-se o principal demandante desse tipo de certificado de café, já que ele presta-se de contraponto à pluralização de programas de certificação no mundo, que muitas vezes criam dificuldades para esses mesmos fabricantes, que obrigam-se a ter em suas embalagens entre 03 a 08 tipos de certificados diferentes,dependendo do mercado consumidor onde atuam. Isto posto, tornase necessária a disposição de uma breve conversação sobre possibilidades de cenários para a cafeicultura. O 4C portanto, é o ponto de partida para a análise apresentada a seguir. Mercado Mundial A previsão para o ano safra 2008/2009 é a colheita entre 123 e 126 milhões de sacas, de acordo com a Organização Internacional do Café, com projeção de consumo para o ano de 2008, prevista entre 123 e 125 milhões de sacas,caso o crescimento do consumo mundial mantenha-se na casa dos 1,5 a 2% ao ano. Esse perfil de escassez da oferta de grãos, por sua vez, impacta diretamente na elevação do preço médio mundial da bebida. De acordo com a Associação Alemã de Cafés (Deustcher Kaffeeverband), o preço médio do quilo do café torrado na União Européia foi de • 7,40, assumindo uma tendência altista de até 5% para o ano de 2008, impulsionadas pelas altas do preço dos contratos de café negociados nas bolsas de Nova Iorque e Londres (em torno de 20%), conforme aponta informações da Illy Café. A demanda por grãos, combinadas por preços mais atrativos, ainda que se considere a volatilidade dos contratos negociados na Bolsa nova-iorquina, cuja média acumulada em 2007 foi de 2,42%, de forma alguma altera a tendência mundial de busca de novas fronteiras de produção de cafés, com vistas a minimização de preços da matéria-prima utilizada na formação de blends industriais. Como a oscilação do preço do café industrialização é praticamente descolada do preço do café verde no mundo, o mercado consumidor, principalmente em mercados desenvolvidos, tem possibilidade de crescimento projetado estruturado: média anual variando entre 1,5 e 3% ao ano. Se por um lado a produção no Vietña já assusta, em decorrência dos preços praticados na venda de seus cafés, pode-se afirmar que a inserção de investimentos em território africano, especialmente em países produtores do Leste Africano, podem assustar ainda mais. Ao que parece, a variável produção de cafés de qualidade nestes territórios, será nivelada por meio da adoção do Código Comum para a Comunidade Cafeeira, programa certamente aceito pela Comissão da Agricultura da União Européia, uma vez que a Organização Internacional do Café situase em território europeu e é membro efetivo da FAO. Se tal premissa se confirmar, a ampliação dos investimentos estrangeiros nesses países continuará a ganhar impulso, já que a idéia de se desvincular do Brasil, como fornecedor de café, é uma idéia que apetece um conjunto significativo de traders internacionais. Explico: cafés produzidos em países paupérrimos, com graves problemas sociais, tem apelo fortíssimo junto aos conscientizados consumidores da Europa, Estados Unidos, Canadá e Japão. Não apenas pela questão social propriamente dita, mas pelos aspectos ambientais e exóticos contidos no produto. Além disso, a proximidade dessas regiões produtoras, com grandes mercados consumidores, tem estimulado também o investimento industrial. O recente anúncio de instalação de uma fábrica de produção de café solúvel na Rússia, realizado pela Kraft Foods, demonstra uma tendência da busca natural pela proximidade entre produtores e consumidores. A Rússia, ressalta-se, é o principal mercado consumidor de café solúvel do planeta e principal cliente do solúvel brasileiro. O 4C, ressalta-se, resolve um problema da indústria global, a medida que seu código de conduta prevê as sustentabilidades social,ambiental e econômica, que são elementos de exigência para consumidores adquirirem produtos nos principais mercados. Ele preserva a prática da commoditização, sem deixar de privilegiar aspectos relevantes para os consumidores. O efeito no Brasil, quando se refere ao mercado interno, nesse sentido, tende a demorar um pouco mais a se efetivar. Sobre o mercado nacional, disserta-se a seguir.